Você me tira do sério com essa carinha de quem me quer, mesmo não podendo querer. Me faz de gato e sapato, me vira do avesso, e jura de pé junto que não tem nada a ver. Me tira a pouca normalidade que eu tenho, a coragem, o ar, me despe inteira de todas a forças. E eu fico ali, fraca, imaginando a sua fraqueza, querendo te dar o pouco de força que me resta pra que comece a admitir as coisas, mesmo que seja só pra você. Fico ali, aqui, devorando brigadeiro fervendo na panela, porque não tenho mais paciência pra esperar ele esfriar, gastei tudo em você, esperando que você estivesse no ponto certo pra gente ser feliz. Tomo consciência, passo um ano fazendo dieta de você, e é incrível, incrível como apenas um dia consegue estragar tudo. Engordo de novo, perco a disposição, até pra minha caminhada matutina que demorei tanto pra acostumar a fazer. Depois de algumas comédias românticas, durmo e acordo decidida a voltar à dieta na segunda, mas passam os meses e a segunda nunca chega. Aí então, sem segundas-feiras, continuo te amando, mesmo com todas as consequências que você me traz.
Elif Özer
Caminhei na beira da praia, eram quase onze da noite. As pessoas já tomavam seus lugares na areia, a espera do ano novo. Com os chinelos nas mãos, deixei a água chegar até os joelhos. Então sentei, e passei as mãos na areia, ainda que a minha vontade fosse pousar elas sobre você. O vento soprou, leve, insistente. Era gente demais, barulho demais. Meus amigos já estavam pra lá de Bagdá, mas eu, ah eu tava muito mais longe que isso. Eu pairava sobre todos os nossos momentos. Tantos e tão poucos ao mesmo tempo. Te deixo em 2012. Deixo nossas memórias e nossos planos. Deixo suas palavras vazias e seus braços que nunca me abraçavam. Deixo nossos sonhos e as promessas que você nunca cumpriu. Te deixo em 2012, como um dos muitos livros que não consegui terminar de ler. Não agüento mais. E isso não é vergonha pra mim. Você foi o motivo das minhas lágrimas, vezes demais. Te deixo em 2012, mas não como te deixei nos últimos anos. Te deixo me deixando, porque metade de mim morre hoje. Te deixo, e começo o ano pegando a alegria dos outros emprestada. Me perco no sorriso de outras pessoas e construo castelos sobre a areia, mas te deixo em 2012. Contagem regressiva.
Elif Özer
Eu estava tão cansada dos jogos, das esperas, e das mensagens que nunca vinham. Disse isso pra você não disse? E eu estava. Mas eu nunca teria desistido de você. Jogaria de GTA até Banco Imobiliário e esperaria você na praça, todas as tardes chuvosas de domingo. Continuaria aceitando suas brincadeiras e suas piadinhas, porque eu saberia que elas viriam com sorrisos, com os seus sorrisos. Eu faria de tudo, tudo pra te ver feliz. Mesmo que isso custasse a minha felicidade, mesmo que essa frase, se tornasse um clichê ridículo, como acabou de se tornar. Eu teria te ligado todas as noites antes de dormir, e todas as noites em que não dormi. E você teria passado a madrugada conversando comigo , até eu pegar no sono, como você costumava fazer. Só que eu estava tão cansada dos jogos, das esperas e das mensagens que nunca vinham, que esqueci de te dizer que de você, eu não cansaria nunca.
Elif Özer
Eu fiquei ali, sentada, te esperando, naquela padariazinha onde a gente costumava se encontrar. Mesmo sabendo que você não vinha. Mesmo sabendo que você não voltava. Lembrei de quantas vezes você tentou me convencer a tomar aqueles sucos de laranja naturais, porque era bom pra saúde. E lembrei…
Tenho o infeliz costume de deixar as coisas que faço pela metade. Deixei o violão pela metade, o karatê pela metade, deixei até o ballet pela metade. Não sei como, mas faço sem perceber. Deixei a gente pela metade, lembra? Então, eu não sei porque, nem como, só deixei. Soltei ao vento pra ver…
Como criança que enrola para estudar, eu evitava o máximo possível fugir do seu encontro. Entenda, essa infantilidade da qual eu dispunha me fazia tão feliz. Levar a vida tão seriamente nunca me fez bem algum. É, eu realmente não estava preparada pra você, para os seus planos, seus sonhos, para…